Rompendo rumo a Flores de Guatemala

Uma das partes mais complicadas da minha viagem mochileira da Colômbia até El Salvador. Compartilho hoje esta publicação em que documento para a posteridade a realidade de que para se conhecer lugares como esses também é necessário vencer alguns perrengues no meio do caminho.

Hoje venho até aqui para registrar uma passagem épica de um dos capítulos de minha viagem de mochilão para a Colômbia e América Central. Não venho aqui hoje para compartilhar fotos fantásticas de paisagens e lugares impressionantes. Hoje venho para documentar o meu sofrimento em uma travessia longa e todos os detalhes para evitar com que vocês também caiam em alguns erros que eu cometi enquanto viajava entre Honduras e Guatemala.

Ainda depois de visitar a Guatemala, viajei para El Salvador para descansar um pouco de toda a loucura que foi percorrer 7 países em menos de 45 dias. Essa foi uma das mais épicas travessias de fronteira que já realizei em toda a minha vida. Sofrida, sem grana, com os cartões de crédito bloqueados e com muita fome. Dizem que quando a fome aperta, o home descobre os seus verdadeiros limites. Nossa última refeição foi feita em uma feira livre ainda na cidade de Copan/Honduras, voltaria a comer umas 24 horas depois...

Almoço em uma feira livre
Almoço em uma feira livre na cidade de Copán Ruínas

A partir do momento que nos alimentamos, decidimos que seria a hora mais apropriada para começar o deslocamento que teria seu fim apenas aproximadamente 500 kilômetros mais tarde, na cidade de Santa Elena (ao lado da Ilha de Flores), rota básica para aqueles que almejam conhecer a fantástica capital do Império Maia: a cidade de Tikal.

Definitivamente não estava preparado para fazer essa travessia. Tive diversos problemas e complicações no decorrer deste trajeto. Vamos relatar aqui algumas delas, e traçar o caminho das pedras para que você não passe pelos mesmos perrengues.

Fronteira entre Honduras e Guatemala
Fronteira entre Honduras e Guatemala - ainda em território hondurenho

Pode parecer até tranquilo, viajar uns 500kms entre dois países da América Central. Pode até parecer uma distância curta para nós brasileiros, acostumados com as distâncias praticamente continentais que vivemos enfrentando em nosso país. Mas quando se fala em América Central, e viagem internacional de ônibus, a situação muda um pouco de figura.

Compramos o coletivo que levava de Copán Ruínas até a fronteira com a Guatemala. Nesta fronteira, descemos da VAN e atravessamos caminhando. Honduras, Guatemala, Nicaragua e El Salvador são membro da Região CA-4, uma organização internacional tal como é o Mercosul. A partir do momento que adentramos essa região, na cidade de Peñas Blancas, Nicaragua, então já tínhamos o carimbo no passaporte que garantiria a livre permanência durante 180 dias em qualquer um desses países, bem como o livre tráfego entre as fronteiras. Não precisaríamos mais passar por aduanas, era só caminhar de um país para o outro.

Esperando o buzão que rumava pra Flores
Na fronteira - lado da Guatemala

E até então a viagem estava muito legal! Eu tenho uma atração por viagens nais quais é necessário romper fronteiras assim caminhando. Em muitos lugares foi necessário apresentar o carimbo de entrada no CA-4. Principalmente em território hondurenho. Várias vezes fomos parados pela própria polícia, que exigia os passaportes, queria saber para onde estávamos indo e tudo mais. Já na Guatemala as pressões burocráticas começaram a diminuir e os problemas com as finanças a aumentar.

O que aconteceu foi o seguinte: não tínhamos moeda forte. O dinheiro era sacado via ATMs, conforme fosse necessário. O grande problema - você fica a mercê dos cartões. Problemas de comunicação com o banco, ATMs sempre fora do ar, isso quando existiam. Cruzar fronteiras assim não é tão fácil. Troquei todos as minhas Lempiras (moeda hondurenha) pelos Quetzales guatemaltecos nesta última fronteira. Como ambas as moedas são super desvalorizadas, praticamente tinha 10 dólares para conseguir vencer os 500km de chão que ainda faltavam até o destino final.

O grande problema foi acreditar que encontraríamos um ATM por perto quando precisassemos de mais grana (se precisasse é claro), e o que aconteceu?! Precisou! E muito! As distâncias podem parecer curtas, mas são difícies de serem vencidas. As rodovias não são muito bem estruturadas, cheias de curvas, o que faz a viagem se delongar o suficiente por uma noite inteira.

De van em van, conseguímos chegar até o ponto de ônibus que nos levaria até Santa Helena. Vale lembrar que o medo era constante - essa região é muito terra de ninguém. Era comum ver pessoas andando tranquilamente com uma cartucheira e revólver a tira colo. Nada satisfatório e justamente por isso viajávamos sem nada de valor, pois era importante minimizar os problemas ao máximo até chegar no destino final.

Esperando o buzão que rumava pra Flores
Esperando o buzão que rumava pra Flores em uma quebrada na Guatemala

Meus objetivos na Guatemala foram cumpridos, com certo custo, mas com intensa satisfação. Conseguimos conhecer Flores e Santa Helena, consequentemente um dia em Tikal. Desde esse destino, partimos para a cidade de Antiqua, ao sul do país e para alguns dias de praia em Monterrico - banhada pelas ondas do Oceano Pacífico.

A viagem nos custou toda a noite. Cortamos o país de ponta a ponta até Flores, uma Ilha anexada a Santa Helena, no Lago Peten Itza. Vamos abordar muito esta região nas próximas publicações sobre essa saga pela América Central.

Quando o ônibus parou, descobrimos que nosso dinheiro não dava para todos que estavam viajando (eramos três pessoas). Entramos a todo custo no único ônibus que viajaria naquela noite até o norte desse país. Sem outra alternativa, nos esprememos entre os locais e ficamos ali mesmo no corredor. A viagem durou 8 horas. O meu assento era minha mochila.

8 horas sentado na mochila em um buzão lotado até Flores
8 horas sentado na mochila em um buzão lotado até Flores

Conversamos com o motorista, explicamos a situação e ele gentilmente nos deixou viajar pela grana que tinhamos. Contamos também da esperança de encontrar um ATM para conseguir alguns quetzales, mas ele nos alertou que nas paradas que faria, talvez não teríamos como fazer os saques. Assim fomos rompendo Guatemala adentro.

A primeira foto desta publicação foi tirada já quando havíamos chegado ao terminal rodoviário de Santa Helena. Como era um território desconhecido, resolvemos esperar o dia clarear na rodoviária mesmo, para depois procurar uma hospedagem descente, descansar um pouco e já rumar direto para Tikal.

Conseguimos ATMs que funcionavam, sacamos o dinheiro necessário para os dias na Guatemala e logo antes ainda de amanhecer já havíamos negociado o passeio até Tikal. A van saíria de Flores mesmo nos levaria e nos traria de volta. Foi um alívio chegar neste lugar!

Finalmente na Isla de Flores - Norte da Guatemala
Finalmente na Isla de Flores - Norte da Guatemala

Foi difícil chegar no destino final desta viagem que começou bem cedinho em uma feira de Copán. Mas a partir daqui, saberia que teria a oportunidade de complementar a experiência Maia obtida nas Ruínas e com direito ao bônus de conhecer a antiga capital da Guatemala (Antiqua) e desfrutar de um fantástico dia em uma das praias deste país. Nos próximos posts aguardem uma viagem fascinante pelas ruínas da cidade que foi considerada capital do Império Maia - Tikal, na Guatemala.

Luiz Jr. Fernandes
Autor

Luiz Jr. Fernandes

Analista de TI, empresário, fotógrafo e viajante.
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