Citando a própria wikipédia, o Cartel é um acordo explícito ou implícito entre concorrentes para, principalmente, fixação de preços ou cotas de produção, divisão de clientes e de mercados de atuação[1] ou, por meio da ação coordenada entre os participantes, eliminar a concorrência e aumentar os preços dos produtos, obtendo maiores lucros, em prejuízo do bem-estar do consumidor. Sendo assim posso afirmar-lhes que a Ilha de Koh Phi Phi, no sul da Tailândia, possui o mais abusivo cartel que já encontrei viajando mundo afora!

Apesar de tão abusivo, é uma prática alegada como normal, voltada para proteger os comerciantes da ilha. Bastou caminhar por algumas horas pesquisando preços e lá estavão as evidências do cartel em praticamente todos os segmentos comerciais que atuam neste arquipélago tailandês. Da comida aos passeios, passando brevemente pelo setor hoteleiro – praticamente todos os estabelecimentos comerciais concorrentes possuem um certo price agreement orgulhosamente assumido e até certo ponto poderia ser comparado a um grande deboche com a cara do turista que rompe os quase mil quilômetros que separam Bangkok e Koh Phi Phi.

Cartel nas hospedagens é evidente logo na chegada ao cais
Cartel nas hospedagens é evidente logo na chegada ao cais

Começando pela hotelaria – uma grande vergonha e falta de respeito com o turista ver que os hotéis que possuem a mesma estrutura sempre tem a faixa de preço idêntica. Se o visitante pretende se hospedar em um grande resort, com uma bela piscina em frente ao mar, então poderia comparar essa mesma estrutura e chegar a conclusão que os preços sempre seriam muito próximos. Da mesma forma as hospedagens mais baratas, com no máximo ventilador no quarto e banheiro privativo. Os preços eram sempre os mesmos!

E quem perde como sempre é a parte mais fraca – o viajante independente – que acaba tendo que pagar os preços abusivos, por perder a força de regateio! E não adianta mesmo pechinchar! Quanto mais era necessário usufruir dos produtos e serviços prestados pela ilha, mais impressionado eu ficava pela cara de pau dos locais em cobrar os preços sempre muito mais caros do que no continente e sempre com um sorriso lerdo no rosto.

Cartel na alimentação em Koh Phi Phi
Acordos até no preço da alimentação

Até mesmo o Pad Thai simples, que em Bangkok era encontrado por menos de 30 Bahts tinha o dobro do preço em todos os cardápios de restaurantes, do mais fulera ao mais requintado, sempre resguardando a faixa de poder aquisitivo. Por exemplo, se o restaurante é mais baratinho, com menor estrutura, então julga-se que o Pad Thai era 60 Baht, agora se ele for um pouco mais luxuoso, então o Pad Thai sobe para os 120 Baht, e estabiliza-se assim em todos os restaurantes do mesmo nível. Uma “sem-vergonhagem” sem tamanho!

E não para por aí! A dor no bolso do turista aparece de verdade quando se vê em uma ilha que não é aquela em que foi filmado filme “A Praia”, e que para chegar até lá precisará dos serviços dos barqueiros, todos com preços combinados. Dependendo da quantidade de pessoas os passeios possuem um preço, quanto mais gente, mais barato fica. Se o viajante for sozinho então se lasca pois paga quase 100 Baht a mais por um snorkel tour.

3.000 Baht por um mergulho em qualquer lugar de Koh Phi Phi
3.000 Baht por um mergulho em qualquer lugar de Koh Phi Phi

Pra quem pretende praticar mergulho com cilindro então a situação pode ficar pior. O preço básico de mergulhos na Tailândia costuma girar entre os 50 e os 100 dólares, e claro que o mais caro é em Phi Phi. Existe um acordo de preços entre todas as empresas que prestam esse serviço, chega a ser engraçado consultar preços em todas as agências e ver que o preço mais econômico para um mergulho com cilindro (dois tanques) nunca era menos que 3.000 Bahts (cerca de U$ 100). Agora o manifesto de revolta é ver um destino tão paradísiaco em pleno século XXI trabalhando com práticas tão arcaícas quanto a formação de cartéis, que bombou mesmo na Segunda Revolução Industral, metade do século XIX.


Autor
Luiz Jr. Fernandes
Sou um analista de sistemas, fotógrafo, autor deste blog e viajante profissional. Já conheci mais de 70 países em todos os continentes do mundo. As minhas matérias são 100% exclusivas, inspiradas em experiências reais adquiridas nos destinos que visito. Obrigado por ler e acompanhar o meu trabalho.
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2 comentários publicados
  1. Não sei se cartel seria a palavra certa e nem se isso se aplica só a Koh Phi Phi. Por isso não entendi muito a sua indignação…

    Serviços semelhantes (mesma qualidade) de um mesmo lugar possuem (ou devem possuir) preços semelhantes.

    Os passeios econômicos contam com equipamentos de certa qualidade e certo custo fixo. Por isso os passeios econômicos tem custo parecido. Os passeios mais caros contam com equipamentos melhores e custos fixos maiores.

    O mesmo acontece com restaurantes. Comida econômica requer estrutura econômica para poder ter preço baixo. Comida com requinte requer estrutura requintada para atender a demanda mais exigente. Em cada caso a faixa de preço é parecida entre os concorrentes diretos.

    Cada tipo de hospedagem possui custos fixos parecidos e por isso os preços também são parecidos.

    Consideraria cartel se TODOS os hotéis econômicos cobrassem US$30,00 ou mais, deixando os viajantes econômicos sem opção…

    1. Olá! Obrigado pela visita e principalmente pelo comentário! Cartel, ou como diziam os próprios comerciantes, o "price agreement" é uma prática muito comum em Phi Phi. Um exemplo foi o meu batismo no mergulho com cilindro, não encontrei nada por menos de 3000 Bahts (cerca de U$ 100,00), enquanto em Samui havia encontrado até pela metade do preço, e da mesma forma em vários outros destinos do Sudeste Asiático (tanto é que mergulhei em Tulamben na ilha de Bali por 50U$, com a mesma estrutura ou até melhor). 

      Não tenho indignação quanto a essa prática, pelo contrário, até compreendo que ela seja necessária em um lugar tão turístico e fantástico quanto são as ilhas Phi Phi, o complicado é ver que lá acontece justamente isso que você mencionou: os viajantes independentes se transformam em reféns dos cartéis, desde que perdem o poder de barganha e negociação e acabam pagando mais caro para ter os mesmos serviços que acabam sendo mais econômicos para quem viaja em grupo (há casos e casos…)

      Outro detalhe interessante é justamente sobre a hospedagem. Se a ilha lota em um determinado período, então o viajante sofre para encontrar algo que seja realmente econômico, e sou prova viva disso, desde que fiquei 6 dias hospedado em um bungalow de bamboo, dormindo no chão, tomando banho de bacia pois não havia nada melhor na ilha pelo mesmo preço (a propósito a diária girou entre 25 e 30 U$ pois estávamos em um grupo de 6 pessoas). 

      Há experiências boas e ruins, mas o objetivo desse post é justamente o de alertar ao viajante sobre esses cartéis, dar entendimento ao que acontece em praticamente todas as ilhas do planeta, mas que ficam mais evidentes nos lugares mais turísticos, assim como é Phi Phi.

      Sobre os restaurantes, realmente todos tem condições de praticar os preços que bem entenderem, só ficava muito evidente a pratica do cartel quando consultava os preços de uma banquinha para a outra concorrente, e ver que até o rolinho primavera tinha o mesmo preço, e da mesma forma acontecia com o Pad Thai, com o churrasco de peixes e até mesmo no tal do Seven Eleven, efim, ficou aqui registrado o alerta para que o viajante fique de olho nesses detalhes e saiba se safar.

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