Reflexões de um viajante solitário

Viajar sozinho é uma opção totalmente pessoal e intransferível. Venho compartilhar aqui de alguns pensamentos que persistem em mim todos os dias durante esta viagem solo ao Peru e que têm tudo a ver com a idéia de não viajar em grupos, mais sim, sozinho.

Viajando sozinho estou percebendo muitos detalhes que não conseguiria talvez discernir nunca se estivesse a viajar em um grupo. Entenda grupo por ao menos um companheiro conhecido seu, que está saindo e estará voltando com você em uma viagem. Sim, creio que tenho aprendido minuto a minuto nessa minha empreitada solo perambulando pelas principais cidades peruanas.

Tenho visto muitos viajantes das nacionalidades mais diversas viajando em grupos de dois, três, e hoje vi até um grupo de dez viajantes brasileiros, todos juntos, aqui em Cuzco - Peru. Não estou julgando-os, muito menos questionando se isso é bom ou ruim, estou apenas introduzindo a idéia de viagens em grupos. Também encontrei alguns viajantes que estavam assim como eu, sem a tal da compahia de viagem.

Sem estar introduzido em um grupo específico, sem precisar de uma audiência para sair a cada esquina, me sinto muito mais livre para decidir meu roteiro e aproveitar o melhor do que há para mim, sem necessitar entrar em acordo com a compahia. E assim consigo observar de fora todos os grupos e suas motivações particulares. Estando nessa específica situação de viajante solitário, vejo que as pessoas que estão a viajar em grupos tendem a ter objetivos parecidos. Existem aqueles grupos que têm por objetivo em suas viagens, sair, conhecer tudo, estar em dias com os museus e os melhores lugares para se visitar nas cidades em que chegam, mas vejo também que existem aqueles grupos que saem para viajar com objetivo único de explorar as baladas, festas, as curtições que existem internacionalmente.

Viajando sozinho, sem estar inserido em um grupo específico, sem ter uma compahia original de viagem, sinto que não me enquadro facilmente em nenhum grupo. E assim consigo facilmente discernir como as pessoas estão viajando. E estar em grupos é algo natural para o ser humando desde a idade da pedra! É claro que eu me enquadro facilmente em vários grupos, não os odeio, pelo contrário, são essenciais para um viajante solitário. Definitivamente é muito interessante observar as pessoas em suas viagens. Aqui no Peru tenho visto gente de toda a parte do planeta! Encontrei brasileiros badaleiros e compromissados com conhecer! Conheci australianos que estavam viajando por toda a América do Sul com o único objetivo de conhecer, sem badalar, sem ter interesse em virar noites em pubs, ou sem ao menos utilizar de alcool para poder se aproximar das pessoas.

E também conheci a brasileiros, exaultadíssimos, loucos por baladas, que investem suas noites se embriagando e seus dias ocupando camas de albergues, esperando pelas badaladas noites de Cuzco. Sim, conheci de tudo! E é claro que eu me englobei em alguns grupos sim, mais o interessante em estar viajando sozinho é justamente a facilidade em se englobar a algum grupo de viajantes que têm objetivos em comum, mas é muito mais interessante poder ter a certeza que o poder de mudar o rumo da viagem, ou os objetivos de um passeio, encontram-se em minhas mãos. Vi muita gente viajando para badalar, vi muita gente viajando para conhecer, para aprender e também para ambos! Sim, e o melhor é com certeza observar essas pessoas, e analisar como estão as coisas aqui comigo, e tentar sempre usufruir do melhor de todos os lados para poder desfrutar ao máximo do mísero tempo que tenho fora do Brasil.

Viajando sozinho, eu englobo culturas diferentes, sem a necessidade da dependência de estar em um grupo para ser aceito. E até aqui, em um país que abriga a tantos viajantes de todos os cantos do mundo, eu vejo que ainda as pessoas não compreendem bem o sentido de estar em movimento pelo mundo sem ter algum companheiro, nativo, que veio com você por perto.

Quando decidi iniciar uma viagem internacional de 20 dias sozinho ao Peru, eu tinha sim a certeza do que eu estava por fazer. Como eu queria estar comigo mesmo para apurar as minhas idéias, observar as pessoas, como viajam, como interagem, e principalmente como aceitam a um brasileiro que está a perambular sozinho mundo a fora.

Sozinho, aqui, despido dos meus bens materiais, despido do nome que tenho no Brasil, daquilo que sou, é assim que consigo observar como as pessoas são. Veja, eu não tenho nada além da minha mochila por aqui comigo, e ainda assim tenho conhecido pessoas fabulosas, que me aceitam e se tornam minhas amigas e companheiras de viagem sem necessitar se afirmar por quem sou eu, ou por que estou sozinho. Os interesses caem por terra abaixo. Aqui sou aceito por ser um humano, um viajante que não tem muito o que ostentar. Viajando sozinho eu vejo como as nacionalidades aceitam umas ás outras! Fui discriminado por uns e muito bem aceito por outros e o interessante foi observar a evolução de como essa aceitação ocorreu, sendo ela positiva ou negativa!

Aqui conheci e conversei por horas com peruanos nativos de Cuzco, que me aceitaram por ser brasileiro e que se interessaram pelas histórias que eu tinha pra contar. Conheci brasileiros que sequer quiseram saber o meu nome. Aqui, despido de tudo aquilo que eu construí, eu sou como um fantasma que vaga pela terra sem destino, sem a necessidade de ter uma compahia mais que no fundo deseja estar envolto de pessoas.

Ontem estive em Ollantaytambo, o Vale Sagrado dos Incas. Ali, conheci vários brasileiros, alguns em grupo, outros solitários como eu, e é muito interessante observar como nos agregamos facilmente. É fácil ver que todos nós queremos no fundo estar juntos! Em um grupo de brasileiros estavam tres pessoas a viajar, como um grupo, mais que haviam se conhecido nessa viagem. Nesse grupo, dois homens e uma mulher, a interdependência entre eles era tão alta, e já tão cedo, que eu realmente fiquei impressionado. Eles haviam se conhecido havia pouco tempo, e desde já dependiam-se financeiramente, tinham um cuidado mútuo e uma necessidade de estar juntos assombrosa. E não eram conhecidos antes de sair do Brasil. Então, meus queridos leitores, como é que essa dependência mútua em grupo cresce rápido! E creio que esta dependência é um dos males de estar viajando em grupo. Assim o vejo agora, estando só.

Dia a dia vejo que o mais necessário é estar em movimento! É conhecer o frio para dar valor ao calor. É passar sede, pra ter o filtro de água da sua casa como seu melhor amigo. Finalizando esta breve publicação, garanto a vocês que minha viagem só já esta a burbulhar revoluções na forma na qual vejo a vida e a vou encarar em minha rotina diária.

Luiz Jr. Fernandes
Autor

Luiz Jr. Fernandes

Analista de TI, empresário, fotógrafo e viajante.
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